Sexta, 02 de Novembro de 2007
Um motorista, parado no sinal, subitamente se descobre cego. É o primeiro caso de uma "treva branca" que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardados em quarentena, os cegos vão se descobrir reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas. O Ensaio sobre a cegueira é a fantasia de um autor que nos faz lembrar "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam". José Saramago nos dá, aqui, uma imagem aterradora e comovente de tempos sombrios, à beira de um novo milênio. Saramago nos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez, resgatar o afeto: essas são as tarefas do escritor e de cada leitor, face à pressão dos tempos e ao que se perdeu: "uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos".
O Moro é o único herdeiro masculino de uma antiga dinastia dos Gama-Zogoby. Uma dinastia que, na Índia, sempre teve o monopólio do comércio das especiarias. E sempre foi marcada pelo caráter forte de suas mulheres. O Moro sabe muito bem disso quando sua mãe, Aurora, o obrigou a ir para o exílio. Aurora que nas suas misteriosas reações, revela através de pinturas mágicas os segredos da sua família que não sabe amar os seus filhos sem destruir-lhes, e um país que não sabe amar o seu povo sem sufocá-lo.
Raskólnikov, personagem principal do livro, é um estudante e homicida perseguido pela memória de seu crime. Paupérrimo, resolve matar uma "miserável e inútil" agiota, para salvar a si próprio e a sua família; comete o crime, mas logo se vê obrigado a assassinar outra pessoa, inocente, e sai sem ter roubado grande coisa; as dúvidas o devoram, seu duelo de conversas com o comissário de polícia destrói-lhe os nervos e, por fim, confessa o crime a uma prostituta que lhe mostra o caminho do arrependimento e do Evangelho. Dostoiévski identifica o problema central dos limites da liberdade da ação humana, mas também sugere as possibilidades de redenção pelo crime. O livro é uma parábola da culpa e da punição.
Os sarcasmos que Rousseau lançava contra os reis, os grandes e os ricos, porque sabia antecipadamente que eles eram hostis à liberdade dos homens e, portanto, à das crianças, tiveram sua justa paga. Em 9 de julho de 1762, uma senteça do Parlamento de Paris condenava o Emílio a ser rasgado e queimado, e ordenava: "O chamado J.J. Rousseau...será detido e levado às prisões da portaria do Palácio". Como de hábito, as condenações apenas garantiram ao livro toda a publicidade que ele merecia; foi um dos grandes sucessos do século. Mas o amor real às crianças e a liberdade que nele respiramos fazem dele um livro de todos os tempos. Cada geração de educadores descobre nele, com surpresa, o que confusamente procura: o caminho para a autonomia do sujeito.
Ao pesquisar uma seita italiana de curandeiros e bruxos, o historiador Carlo Giinzburg deparou-se com um julgamento excepcionalmente detalhado. Tratava-se do depoimento de Menocchio, um moleiro do norte da Itália, no século XVI ousara afirmar que o mundo tinha origem na putrefação. Graças ao fascínio dos inquisidores pelas crenças desse moleiro, Ginzburg encontrou farta documentação, a partir da qual pôde reconstituir a trajetória de um Menocchio num texto claro e atraente, e desembocar em uma hipótese geral sobre a cultura popular da Europa pré-industrial.